terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Mafalda - Classe Média

Enviado por Andréa Mendes

Coerção social em comunidades de insetos - Estadão, 20.12.06

Coerção social em comunidades de insetos

Fernando Reinach*

Para desgosto de alguns teóricos do socialismo, Darwin demonstrou que um dos motores da evolução é a competição entre os indivíduos de uma espécie. Nessa competição, os mais adaptados ao meio se reproduzem rapidamente, enquanto os menos adaptados acabam por se extinguir. Uma das dificuldades enfrentadas por Darwin foi encontrar explicação para a existência de animais sociais, como as abelhas, em que aparentemente a competição é substituída por uma cooperação de tal modo sofisticada que alguns membros da sociedade (no caso a casta das trabalhadoras) abdicam da capacidade de reproduzir para, num gesto altruísta, auxiliar na criação de seus irmãos.

Foi somente em meados do século 20 que um geneticista demonstrou que a melhor maneira de uma abelha trabalhadora transmitir seus genes para a próxima geração é abdicar da reprodução e ajudar na criação de seus irmãos, aumentando suas chances de sobrevivência. Como os irmãos compartilham genes com as trabalhadoras, a estratégia garante a sobrevivência dos genes das trabalhadoras. O fenômeno explica como o altruísmo é compatível com a competição.

ALTRUÍSMO E REPRESSÃO

Durante décadas se discutiu como a reprodução das trabalhadoras é bloqueada pela colônia. Sabemos que muitas trabalhadoras nem sequer tentam produzir ovos mesmo sendo férteis, o que sugere a existência de um “altruísmo voluntário”.

Por outro lado sabemos que uma pequena fração das trabalhadoras produz ovos, mas nesse caso os ovos são destruídos pelas outras trabalhadoras, um caso típico de coerção social. Agora, por meio de estudo comparativo, foi descoberto que provavelmente o mecanismo envolvido no bloqueio da reprodução das trabalhadoras é a “coerção” das demais trabalhadoras.

Foram comparadas dez espécies de insetos sociais. Para cada espécie foram determinados três parâmetros: a porcentagem das trabalhadoras que reproduzem, que varia de 0,075% na abelha comum, a Apis mellífera, até 30% em Polistes chinesis; a efetividade do coerção social, medida através da porcentagem dos ovos postos por trabalhadoras que são destruídos (varia de 30% a 100%); e, finalmente, a similaridade genética entre as trabalhadoras de uma colônia, que varia de 30% a 75% dependendo da freqüência com que a rainha mantém relações sexuais.

Se a causa principal que impede as trabalhadoras de se reproduzir fosse relacionada a uma forma de “altruísmo voluntário”, seria de se esperar que nas espécies em que a similaridade entre as trabalhadoras fosse maior, a porcentagem das trabalhadoras que reproduzem deveria ser menor, mas o que se observou foi exatamente o contrário. Por outro lado, se observou que nas sociedades em que o patrulhamento é mais eficiente, o número de trabalhadoras que se reproduz é menor. Esse resultado demonstra que o bloqueio da reprodução das trabalhadoras não se deve a um “altruísmo voluntário”, mas sim à coerção social.

Muitos criticaram o darwinismo por demonstrar que a competição, um mecanismo considerado por muitos de nós como politicamente incorreto, é uma das forças motrizes da evolução. Agora, mais uma vez, um mecanismo que nós humanos tenderíamos a considerar politicamente incorreto, a coerção social, parece ter um papel importante na evolução das sociedades de insetos.

Mais informações em Enforced altruism in insect societies, na Nature, volume 444, página 50, de 2006.

*fernando@reinach.com
Biólogo

terça-feira, 19 de setembro de 2006

O Paradoxo Conservador - Márcio Coimbra - 13.09

O PARADOXO CONSERVADOR
13.09, 17h41
por Márcio C. Coimbra, de Brasília

Nunca houve uma eleição tão fácil para ser vencida pela oposição. Uma sucessão de erros, e também de falta de sensibilidade política, podem levar o pleito presidencial a terminar já no primeiro turno, em favor de Lula. O roteiro da provável derrota já vem sendo escrito há algum tempo, temperado por elementos que vão do egoísmo ao egocentrismo, permeados especialmente pelo despreparo para a magnitude do projeto em pauta. A (única) chance (real) de retirar Lula do Palácio do Planalto se esvai pelos dedos de uma oposição que acaba por cometer os mesmos pecados e promover praticamente a mesma agenda da situação.

Em primeiro plano vem a briga interna do PSDB. Os pecados dos tucanos podem ser fatais, e afetar sua própria existência como partido e projeto político viável para o País. E aqui é nosso ponto de reflexão. Explico. Enquanto se fala de reforma política e cláusula de barreira, um novo partido vem se articulando para nascer dos cacos das brigas entre tucanos e petistas, consolidando aquilo já previsto anteriormente por analistas políticos – um novo partido de centro esquerda brasileiro.

Nasce, dentro deste novo espectro, uma agremiação partidária que teria por mensagem resgatar os valores “perdidos” pela esquerda brasileira, no caminho do “Novo Trabalhismo inglês”. Este grupo viria de tucanos, petistas e até setores do PMDB, além dos resquícios daqueles partidos que serão varridos do cenário nacional após a cláusula de barreira. Se o PSDB surgiu do “racha ético” do PMDB, um novo partido de esquerda poderá vir de um suposto racha de vários outros que possuem uma clara agenda esquerdista, como PT e PSDB, que estão muito mais próximos ideologicamente do que se imagina.

Os órfãos brasileiros serão, sem dúvida, dentro deste espectro, os reais conservadores, sem liderança, agenda, partido nacional homogêneo e como conseqüência, sem um projeto claro. O PFL, ainda refém de interesses de lideranças regionais que surgiram em ligação íntima com o Estado, não consegue ocupar este espaço e não preparou uma nova geração de lideranças políticas. Uma vez no poder, optou pela timidez na aplicação de uma agenda conservadora-reformista, especialmente nos oito anos do governo FHC. Nunca houve no Brasil a implantação de uma real agenda de idéias conservadoras ou como se chama na Europa, centro-reformistas, que se baseiam na diminuição do tamanho e deveres do Estado, na aplicação da economia de mercado, pela imposição de limites duros ao poder público, e pelo fim das políticas assistencialistas, mascaradas, nos últimos governos, de “transferência de renda”.

Surge, no campo conservador, de forma diametralmente oposta ao eixo da esquerda, um espaço precioso para a constituição de um real partido conservador, afinado com congêneres internacionais como o Conservador britânico, Popular espanhol e Republicano norte-americano. Esta nova agremiação deveria possuir, antes de qualquer coisa, um forte e atuante instituto de estudos, formação e aperfeiçoamento de (novas) lideranças, idéias, projetos e propostas para o País em sintonia com os valores conservadores. É preciso, para esta realização, um projeto de longo prazo, com estabelecimento de metas e muito empenho.

A iminente derrota para Lula é a senha para a reflexão e estabelecimento de metas futuras de longo prazo. A reorganização de forças políticas pela qual o Brasil passará e que propiciará o surgimento de um novo grupamento à esquerda, é a chance da grande reorganização conservadora que certamente encontrará eco em grande parte da sociedade. Além disso, se tucanos e petistas não acordarem de seu sono profundo, ambos passarão a coadjuvantes do cenário político nacional.

Um novo espectro político se desenha no Brasil. 2007 é o início deste processo. Se aqueles que se dizem conservadores continuarem em seu estado letárgico, a agenda continuará tomada pelos temas esquerdistas. Se continuarem, nos Estados que administram, com a mesma política de manutenção no poder via políticas assistencialistas e clientelistas, é bom que saibam que de nada diferem da esquerda. O Brasil precisa, para contraponto político, pelo bom debate e para o bem do País, de uma direita reformista esclarecida, ética, renovada, que use o espaço político e suas administrações de vitrines para implementação de suas propostas, para a consolidação de sua agenda de mudanças, para que coloque em prática políticas liberalizantes e modernas. Caso contrário, o Brasil continuará a escolher entre candidatos que estão mais, ou menos, à esquerda, o grande ciclo vicioso responsável pela desgraça de nosso País.

Assim, reafirmo, nunca houve uma eleição tão fácil para ser vencida pela oposição, se realmente houvesse oposição.