Blog do Tobias. Um pouco do FEBEAPÁ (festival de besteiras que assola o país) e algo além dele. Criado especialmente em homenagem aos amigos que recebem meus inúmeros e-mails.
segunda-feira, 12 de março de 2007
terça-feira, 6 de março de 2007
Onde está o neo-amor? - Arnaldo Jabor - Estado, 06.03.07
Onde está o neo-amor? - Arnaldo Jabor
Eu já fiz filmes de amor. Talvez por isso, e também pela música de Rita Lee com texto que escrevi, pessoas que encontro na rua me agarram e perguntam: 'Mas... afinal, o que é o amor?' E esperam, de olho muito aberto, uma resposta 'profunda'. Eu penso, penso e digo: 'Sei lá...'
Não sei, ninguém sabe, mas há no ar um lamento profundo pelo fim do sonho platônico de harmonia, de felicidade, de happy end. Sinto dizer, mas não há mais espaço para o happy end, nem no amor, nem na política, em nada.
Quando eu era jovem, nos anos 60/70, o amor era um desejo romântico. Depois, nos anos 80/90 foi ficando um amor de consumo, um amor de mercado. O ritmo do tempo acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistério impalpável.
O amor, e tudo mais, está perdendo a transcendência. Não existe mais o amante definhando de solidão, nem Romeus nem Julietas, nem pactos de morte, não existe mais o amor nos levando para uma galáxia remota, nem a sagrada simbiose que nos traria a eternidade feliz.
O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar, não tem mais a família nuclear para se abrigar. O amor ficou pelas ruas, em busca de objeto, esfarrapado, sem rumo. Não temos mais músicas românticas, nem o lento perder-se dentro de 'olhos de ressaca', nem o formicida com guaraná. Mas, mesmo assim, continuamos ansiando por uma paixão impossível. Existe o amor, claro. O que chamamos de 'amor' vive dentro de nós como uma fome 'celular'. Está entranhado no DNA, no fundo da matéria. É uma pulsão inevitável, é uma reprodução ampliada da cópula entre o espermatozóide e o óvulo, se interpenetrando. Somos grandes células que querem se reunir, separadas pelo sexo que as dividiu. O resto é literatura. Se bem que grandes poetas como John Donne sabiam que não viramos 'anjos' com o amor; sabiam que o amor é uma demanda da terra, para atingirmos a calma felicidade dos animais.
Mas, onde anda, hoje em dia, esta pulsão chamada 'amor'? Bem... vamos lá:
Uma das marcas do século 21 é o fim da crença na plenitude, na inteireza, seja no sexo, no amor e na política. Não adianta nos lamentarmos, pois estamos diante de um mundo afetivo e sexual muito novo, que muda veloz como a tecnologia.
Se isso é um bem ou um mal, não sei. Mas é inevitável.
Temos de parar de sofrer romanticamente porque o 'acabou o amor' (ou mesmo o paraíso social...) ou, ao menos o antigo amor.
O pensamento afetivo, amoroso, ou filosófico continua lamentando uma unidade perdida. Continuamos - amantes ou filósofos - a sonhar como uma volta ao passado harmônico. Temos uma nostalgia lírica por alguma coisa que pode voltar atrás. Não volta. Nada volta atrás. Há que perder esperanças antigas e talvez celebrar um sonho mais trágico, efêmero. Em tudo.
Não adianta lamentar a impossibilidade do amor. Temos de celebrar o neo-amor. Cada vez mais só o parcial, o fortuito é gozoso. Só o parcial nos excita. Temos de parar de sofrer por uma plenitude que não chega nunca.
Hoje, há que assumir a incompletude talvez como única possibilidade humana. E achar isso bom. E gozar com isso.
Em todas as revistas, fotos, filmes, a 'imagerie' do erotismo contemporâneo 'esquarteja' o corpo humano. Vejam as artes gráficas, fotos de revistas de arte, como Photo, (ou em Tarantino) onde tudo é (reparem) decepado, dividido, pés, sapatos escarpins negros, unhas pintadas, bocas vermelhas, paus, seios, corpos imitando coisas, tudo solto como num abstrato painel. Tudo evoca a impossibilidade saudosa de um 'objeto total', da pessoa inteira.
À primeira vista parece uma louvação da perversão, do fetichismo, do erotismo das 'partes', do 'amor em pedaços'. No entanto, estamos além do fetichismo, além da perversão - conceitos do século 19.
Não há mais 'todo'; só partes. O verdadeiro amor total fica cada vez mais impossível, como as narrativas romanescas.
Hoje em dia, não há mais noção do que seria a felicidade, como antigamente. O que é ser feliz? Onde está a felicidade no amor e sexo? No casamento?
Sem a promessa de amor eterno, tudo vira uma aventura. Em vez da felicidade, o gozo rápido do sexo ou o longo sofrimento gozoso do amor, só as fortes emoções, a deliciosa dor, as lágrimas, hotéis, motéis, perdas, retornos, desertos, luzes brilhantes ou mortiças, a chuva, o sol, o nada.
O amor hoje é um cultivo da 'intensidade' contra a 'eternidade'. É o fim do happy end. É bom que acabe esta mentira do idealismo romântico americano, para legitimar a família e a produção, pois, na verdade, tudo acaba mal na vida. Não se chega a lugar nenhum porque não há aonde chegar.
O amor, para ser eterno, tem de ficar eternamente irrealizado. A droga não pode parar de fazer efeito e, para isso, a 'prise' não pode passar. Aí, a dor vem como prazer, a saudade como excitação, a parte como o todo, o instante como eterno. E, atenção, não falo de masoquismo; falo de um espírito do tempo. É bom sofrer numa metafísica passional, é bom a saudade, a perda, tudo, menos a insuportável felicidade.
Tudo bem, buscarmos paz e sossego, tudo bem nos contentarmos com o calmo amor, com um 'agapê', uma doce amizade dolorida e nostálgica do tesão, tudo bem... Mas, a chama emocionante só vem com a droga pesada do século 21: a paixão. E isso é bom. Temos de acabar com a idéia de felicidade fácil. Enquanto sonharmos com a plenitude seremos infelizes. A felicidade não é sair do mundo, como privilegiados seres, como estrelas de cinema, mas é entrar em contato com a trágica substância de tudo, com o não-sentido, das galáxias até o orgasmo. Temos de ser felizes sem esperanças.
E tem mais: este artigo não é pessimista.
Eu já fiz filmes de amor. Talvez por isso, e também pela música de Rita Lee com texto que escrevi, pessoas que encontro na rua me agarram e perguntam: 'Mas... afinal, o que é o amor?' E esperam, de olho muito aberto, uma resposta 'profunda'. Eu penso, penso e digo: 'Sei lá...'
Não sei, ninguém sabe, mas há no ar um lamento profundo pelo fim do sonho platônico de harmonia, de felicidade, de happy end. Sinto dizer, mas não há mais espaço para o happy end, nem no amor, nem na política, em nada.
Quando eu era jovem, nos anos 60/70, o amor era um desejo romântico. Depois, nos anos 80/90 foi ficando um amor de consumo, um amor de mercado. O ritmo do tempo acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistério impalpável.
O amor, e tudo mais, está perdendo a transcendência. Não existe mais o amante definhando de solidão, nem Romeus nem Julietas, nem pactos de morte, não existe mais o amor nos levando para uma galáxia remota, nem a sagrada simbiose que nos traria a eternidade feliz.
O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar, não tem mais a família nuclear para se abrigar. O amor ficou pelas ruas, em busca de objeto, esfarrapado, sem rumo. Não temos mais músicas românticas, nem o lento perder-se dentro de 'olhos de ressaca', nem o formicida com guaraná. Mas, mesmo assim, continuamos ansiando por uma paixão impossível. Existe o amor, claro. O que chamamos de 'amor' vive dentro de nós como uma fome 'celular'. Está entranhado no DNA, no fundo da matéria. É uma pulsão inevitável, é uma reprodução ampliada da cópula entre o espermatozóide e o óvulo, se interpenetrando. Somos grandes células que querem se reunir, separadas pelo sexo que as dividiu. O resto é literatura. Se bem que grandes poetas como John Donne sabiam que não viramos 'anjos' com o amor; sabiam que o amor é uma demanda da terra, para atingirmos a calma felicidade dos animais.
Mas, onde anda, hoje em dia, esta pulsão chamada 'amor'? Bem... vamos lá:
Uma das marcas do século 21 é o fim da crença na plenitude, na inteireza, seja no sexo, no amor e na política. Não adianta nos lamentarmos, pois estamos diante de um mundo afetivo e sexual muito novo, que muda veloz como a tecnologia.
Se isso é um bem ou um mal, não sei. Mas é inevitável.
Temos de parar de sofrer romanticamente porque o 'acabou o amor' (ou mesmo o paraíso social...) ou, ao menos o antigo amor.
O pensamento afetivo, amoroso, ou filosófico continua lamentando uma unidade perdida. Continuamos - amantes ou filósofos - a sonhar como uma volta ao passado harmônico. Temos uma nostalgia lírica por alguma coisa que pode voltar atrás. Não volta. Nada volta atrás. Há que perder esperanças antigas e talvez celebrar um sonho mais trágico, efêmero. Em tudo.
Não adianta lamentar a impossibilidade do amor. Temos de celebrar o neo-amor. Cada vez mais só o parcial, o fortuito é gozoso. Só o parcial nos excita. Temos de parar de sofrer por uma plenitude que não chega nunca.
Hoje, há que assumir a incompletude talvez como única possibilidade humana. E achar isso bom. E gozar com isso.
Em todas as revistas, fotos, filmes, a 'imagerie' do erotismo contemporâneo 'esquarteja' o corpo humano. Vejam as artes gráficas, fotos de revistas de arte, como Photo, (ou em Tarantino) onde tudo é (reparem) decepado, dividido, pés, sapatos escarpins negros, unhas pintadas, bocas vermelhas, paus, seios, corpos imitando coisas, tudo solto como num abstrato painel. Tudo evoca a impossibilidade saudosa de um 'objeto total', da pessoa inteira.
À primeira vista parece uma louvação da perversão, do fetichismo, do erotismo das 'partes', do 'amor em pedaços'. No entanto, estamos além do fetichismo, além da perversão - conceitos do século 19.
Não há mais 'todo'; só partes. O verdadeiro amor total fica cada vez mais impossível, como as narrativas romanescas.
Hoje em dia, não há mais noção do que seria a felicidade, como antigamente. O que é ser feliz? Onde está a felicidade no amor e sexo? No casamento?
Sem a promessa de amor eterno, tudo vira uma aventura. Em vez da felicidade, o gozo rápido do sexo ou o longo sofrimento gozoso do amor, só as fortes emoções, a deliciosa dor, as lágrimas, hotéis, motéis, perdas, retornos, desertos, luzes brilhantes ou mortiças, a chuva, o sol, o nada.
O amor hoje é um cultivo da 'intensidade' contra a 'eternidade'. É o fim do happy end. É bom que acabe esta mentira do idealismo romântico americano, para legitimar a família e a produção, pois, na verdade, tudo acaba mal na vida. Não se chega a lugar nenhum porque não há aonde chegar.
O amor, para ser eterno, tem de ficar eternamente irrealizado. A droga não pode parar de fazer efeito e, para isso, a 'prise' não pode passar. Aí, a dor vem como prazer, a saudade como excitação, a parte como o todo, o instante como eterno. E, atenção, não falo de masoquismo; falo de um espírito do tempo. É bom sofrer numa metafísica passional, é bom a saudade, a perda, tudo, menos a insuportável felicidade.
Tudo bem, buscarmos paz e sossego, tudo bem nos contentarmos com o calmo amor, com um 'agapê', uma doce amizade dolorida e nostálgica do tesão, tudo bem... Mas, a chama emocionante só vem com a droga pesada do século 21: a paixão. E isso é bom. Temos de acabar com a idéia de felicidade fácil. Enquanto sonharmos com a plenitude seremos infelizes. A felicidade não é sair do mundo, como privilegiados seres, como estrelas de cinema, mas é entrar em contato com a trágica substância de tudo, com o não-sentido, das galáxias até o orgasmo. Temos de ser felizes sem esperanças.
E tem mais: este artigo não é pessimista.
terça-feira, 26 de dezembro de 2006
Coerção social em comunidades de insetos - Estadão, 20.12.06
Coerção social em comunidades de insetos
Fernando Reinach*
Mais informações em Enforced altruism in insect societies, na Nature, volume 444, página 50, de 2006.
*fernando@reinach.com
Biólogo
Fernando Reinach*
Para desgosto de alguns teóricos do socialismo, Darwin demonstrou que um dos motores da evolução é a competição entre os indivíduos de uma espécie. Nessa competição, os mais adaptados ao meio se reproduzem rapidamente, enquanto os menos adaptados acabam por se extinguir. Uma das dificuldades enfrentadas por Darwin foi encontrar explicação para a existência de animais sociais, como as abelhas, em que aparentemente a competição é substituída por uma cooperação de tal modo sofisticada que alguns membros da sociedade (no caso a casta das trabalhadoras) abdicam da capacidade de reproduzir para, num gesto altruísta, auxiliar na criação de seus irmãos.
Foi somente em meados do século 20 que um geneticista demonstrou que a melhor maneira de uma abelha trabalhadora transmitir seus genes para a próxima geração é abdicar da reprodução e ajudar na criação de seus irmãos, aumentando suas chances de sobrevivência. Como os irmãos compartilham genes com as trabalhadoras, a estratégia garante a sobrevivência dos genes das trabalhadoras. O fenômeno explica como o altruísmo é compatível com a competição.
ALTRUÍSMO E REPRESSÃO
Durante décadas se discutiu como a reprodução das trabalhadoras é bloqueada pela colônia. Sabemos que muitas trabalhadoras nem sequer tentam produzir ovos mesmo sendo férteis, o que sugere a existência de um “altruísmo voluntário”.
Por outro lado sabemos que uma pequena fração das trabalhadoras produz ovos, mas nesse caso os ovos são destruídos pelas outras trabalhadoras, um caso típico de coerção social. Agora, por meio de estudo comparativo, foi descoberto que provavelmente o mecanismo envolvido no bloqueio da reprodução das trabalhadoras é a “coerção” das demais trabalhadoras.
Foram comparadas dez espécies de insetos sociais. Para cada espécie foram determinados três parâmetros: a porcentagem das trabalhadoras que reproduzem, que varia de 0,075% na abelha comum, a Apis mellífera, até 30% em Polistes chinesis; a efetividade do coerção social, medida através da porcentagem dos ovos postos por trabalhadoras que são destruídos (varia de 30% a 100%); e, finalmente, a similaridade genética entre as trabalhadoras de uma colônia, que varia de 30% a 75% dependendo da freqüência com que a rainha mantém relações sexuais.
Se a causa principal que impede as trabalhadoras de se reproduzir fosse relacionada a uma forma de “altruísmo voluntário”, seria de se esperar que nas espécies em que a similaridade entre as trabalhadoras fosse maior, a porcentagem das trabalhadoras que reproduzem deveria ser menor, mas o que se observou foi exatamente o contrário. Por outro lado, se observou que nas sociedades em que o patrulhamento é mais eficiente, o número de trabalhadoras que se reproduz é menor. Esse resultado demonstra que o bloqueio da reprodução das trabalhadoras não se deve a um “altruísmo voluntário”, mas sim à coerção social.
Muitos criticaram o darwinismo por demonstrar que a competição, um mecanismo considerado por muitos de nós como politicamente incorreto, é uma das forças motrizes da evolução. Agora, mais uma vez, um mecanismo que nós humanos tenderíamos a considerar politicamente incorreto, a coerção social, parece ter um papel importante na evolução das sociedades de insetos.
Foi somente em meados do século 20 que um geneticista demonstrou que a melhor maneira de uma abelha trabalhadora transmitir seus genes para a próxima geração é abdicar da reprodução e ajudar na criação de seus irmãos, aumentando suas chances de sobrevivência. Como os irmãos compartilham genes com as trabalhadoras, a estratégia garante a sobrevivência dos genes das trabalhadoras. O fenômeno explica como o altruísmo é compatível com a competição.
ALTRUÍSMO E REPRESSÃO
Durante décadas se discutiu como a reprodução das trabalhadoras é bloqueada pela colônia. Sabemos que muitas trabalhadoras nem sequer tentam produzir ovos mesmo sendo férteis, o que sugere a existência de um “altruísmo voluntário”.
Por outro lado sabemos que uma pequena fração das trabalhadoras produz ovos, mas nesse caso os ovos são destruídos pelas outras trabalhadoras, um caso típico de coerção social. Agora, por meio de estudo comparativo, foi descoberto que provavelmente o mecanismo envolvido no bloqueio da reprodução das trabalhadoras é a “coerção” das demais trabalhadoras.
Foram comparadas dez espécies de insetos sociais. Para cada espécie foram determinados três parâmetros: a porcentagem das trabalhadoras que reproduzem, que varia de 0,075% na abelha comum, a Apis mellífera, até 30% em Polistes chinesis; a efetividade do coerção social, medida através da porcentagem dos ovos postos por trabalhadoras que são destruídos (varia de 30% a 100%); e, finalmente, a similaridade genética entre as trabalhadoras de uma colônia, que varia de 30% a 75% dependendo da freqüência com que a rainha mantém relações sexuais.
Se a causa principal que impede as trabalhadoras de se reproduzir fosse relacionada a uma forma de “altruísmo voluntário”, seria de se esperar que nas espécies em que a similaridade entre as trabalhadoras fosse maior, a porcentagem das trabalhadoras que reproduzem deveria ser menor, mas o que se observou foi exatamente o contrário. Por outro lado, se observou que nas sociedades em que o patrulhamento é mais eficiente, o número de trabalhadoras que se reproduz é menor. Esse resultado demonstra que o bloqueio da reprodução das trabalhadoras não se deve a um “altruísmo voluntário”, mas sim à coerção social.
Muitos criticaram o darwinismo por demonstrar que a competição, um mecanismo considerado por muitos de nós como politicamente incorreto, é uma das forças motrizes da evolução. Agora, mais uma vez, um mecanismo que nós humanos tenderíamos a considerar politicamente incorreto, a coerção social, parece ter um papel importante na evolução das sociedades de insetos.
Mais informações em Enforced altruism in insect societies, na Nature, volume 444, página 50, de 2006.
*fernando@reinach.com
Biólogo
quarta-feira, 20 de setembro de 2006
terça-feira, 19 de setembro de 2006
O Paradoxo Conservador - Márcio Coimbra - 13.09
O PARADOXO CONSERVADOR
13.09, 17h41
por Márcio C. Coimbra, de Brasília
Nunca houve uma eleição tão fácil para ser vencida pela oposição. Uma sucessão de erros, e também de falta de sensibilidade política, podem levar o pleito presidencial a terminar já no primeiro turno, em favor de Lula. O roteiro da provável derrota já vem sendo escrito há algum tempo, temperado por elementos que vão do egoísmo ao egocentrismo, permeados especialmente pelo despreparo para a magnitude do projeto em pauta. A (única) chance (real) de retirar Lula do Palácio do Planalto se esvai pelos dedos de uma oposição que acaba por cometer os mesmos pecados e promover praticamente a mesma agenda da situação.
Em primeiro plano vem a briga interna do PSDB. Os pecados dos tucanos podem ser fatais, e afetar sua própria existência como partido e projeto político viável para o País. E aqui é nosso ponto de reflexão. Explico. Enquanto se fala de reforma política e cláusula de barreira, um novo partido vem se articulando para nascer dos cacos das brigas entre tucanos e petistas, consolidando aquilo já previsto anteriormente por analistas políticos – um novo partido de centro esquerda brasileiro.
Nasce, dentro deste novo espectro, uma agremiação partidária que teria por mensagem resgatar os valores “perdidos” pela esquerda brasileira, no caminho do “Novo Trabalhismo inglês”. Este grupo viria de tucanos, petistas e até setores do PMDB, além dos resquícios daqueles partidos que serão varridos do cenário nacional após a cláusula de barreira. Se o PSDB surgiu do “racha ético” do PMDB, um novo partido de esquerda poderá vir de um suposto racha de vários outros que possuem uma clara agenda esquerdista, como PT e PSDB, que estão muito mais próximos ideologicamente do que se imagina.
Os órfãos brasileiros serão, sem dúvida, dentro deste espectro, os reais conservadores, sem liderança, agenda, partido nacional homogêneo e como conseqüência, sem um projeto claro. O PFL, ainda refém de interesses de lideranças regionais que surgiram em ligação íntima com o Estado, não consegue ocupar este espaço e não preparou uma nova geração de lideranças políticas. Uma vez no poder, optou pela timidez na aplicação de uma agenda conservadora-reformista, especialmente nos oito anos do governo FHC. Nunca houve no Brasil a implantação de uma real agenda de idéias conservadoras ou como se chama na Europa, centro-reformistas, que se baseiam na diminuição do tamanho e deveres do Estado, na aplicação da economia de mercado, pela imposição de limites duros ao poder público, e pelo fim das políticas assistencialistas, mascaradas, nos últimos governos, de “transferência de renda”.
Surge, no campo conservador, de forma diametralmente oposta ao eixo da esquerda, um espaço precioso para a constituição de um real partido conservador, afinado com congêneres internacionais como o Conservador britânico, Popular espanhol e Republicano norte-americano. Esta nova agremiação deveria possuir, antes de qualquer coisa, um forte e atuante instituto de estudos, formação e aperfeiçoamento de (novas) lideranças, idéias, projetos e propostas para o País em sintonia com os valores conservadores. É preciso, para esta realização, um projeto de longo prazo, com estabelecimento de metas e muito empenho.
A iminente derrota para Lula é a senha para a reflexão e estabelecimento de metas futuras de longo prazo. A reorganização de forças políticas pela qual o Brasil passará e que propiciará o surgimento de um novo grupamento à esquerda, é a chance da grande reorganização conservadora que certamente encontrará eco em grande parte da sociedade. Além disso, se tucanos e petistas não acordarem de seu sono profundo, ambos passarão a coadjuvantes do cenário político nacional.
Um novo espectro político se desenha no Brasil. 2007 é o início deste processo. Se aqueles que se dizem conservadores continuarem em seu estado letárgico, a agenda continuará tomada pelos temas esquerdistas. Se continuarem, nos Estados que administram, com a mesma política de manutenção no poder via políticas assistencialistas e clientelistas, é bom que saibam que de nada diferem da esquerda. O Brasil precisa, para contraponto político, pelo bom debate e para o bem do País, de uma direita reformista esclarecida, ética, renovada, que use o espaço político e suas administrações de vitrines para implementação de suas propostas, para a consolidação de sua agenda de mudanças, para que coloque em prática políticas liberalizantes e modernas. Caso contrário, o Brasil continuará a escolher entre candidatos que estão mais, ou menos, à esquerda, o grande ciclo vicioso responsável pela desgraça de nosso País.
Assim, reafirmo, nunca houve uma eleição tão fácil para ser vencida pela oposição, se realmente houvesse oposição.
13.09, 17h41
por Márcio C. Coimbra, de Brasília
Nunca houve uma eleição tão fácil para ser vencida pela oposição. Uma sucessão de erros, e também de falta de sensibilidade política, podem levar o pleito presidencial a terminar já no primeiro turno, em favor de Lula. O roteiro da provável derrota já vem sendo escrito há algum tempo, temperado por elementos que vão do egoísmo ao egocentrismo, permeados especialmente pelo despreparo para a magnitude do projeto em pauta. A (única) chance (real) de retirar Lula do Palácio do Planalto se esvai pelos dedos de uma oposição que acaba por cometer os mesmos pecados e promover praticamente a mesma agenda da situação.
Em primeiro plano vem a briga interna do PSDB. Os pecados dos tucanos podem ser fatais, e afetar sua própria existência como partido e projeto político viável para o País. E aqui é nosso ponto de reflexão. Explico. Enquanto se fala de reforma política e cláusula de barreira, um novo partido vem se articulando para nascer dos cacos das brigas entre tucanos e petistas, consolidando aquilo já previsto anteriormente por analistas políticos – um novo partido de centro esquerda brasileiro.
Nasce, dentro deste novo espectro, uma agremiação partidária que teria por mensagem resgatar os valores “perdidos” pela esquerda brasileira, no caminho do “Novo Trabalhismo inglês”. Este grupo viria de tucanos, petistas e até setores do PMDB, além dos resquícios daqueles partidos que serão varridos do cenário nacional após a cláusula de barreira. Se o PSDB surgiu do “racha ético” do PMDB, um novo partido de esquerda poderá vir de um suposto racha de vários outros que possuem uma clara agenda esquerdista, como PT e PSDB, que estão muito mais próximos ideologicamente do que se imagina.
Os órfãos brasileiros serão, sem dúvida, dentro deste espectro, os reais conservadores, sem liderança, agenda, partido nacional homogêneo e como conseqüência, sem um projeto claro. O PFL, ainda refém de interesses de lideranças regionais que surgiram em ligação íntima com o Estado, não consegue ocupar este espaço e não preparou uma nova geração de lideranças políticas. Uma vez no poder, optou pela timidez na aplicação de uma agenda conservadora-reformista, especialmente nos oito anos do governo FHC. Nunca houve no Brasil a implantação de uma real agenda de idéias conservadoras ou como se chama na Europa, centro-reformistas, que se baseiam na diminuição do tamanho e deveres do Estado, na aplicação da economia de mercado, pela imposição de limites duros ao poder público, e pelo fim das políticas assistencialistas, mascaradas, nos últimos governos, de “transferência de renda”.
Surge, no campo conservador, de forma diametralmente oposta ao eixo da esquerda, um espaço precioso para a constituição de um real partido conservador, afinado com congêneres internacionais como o Conservador britânico, Popular espanhol e Republicano norte-americano. Esta nova agremiação deveria possuir, antes de qualquer coisa, um forte e atuante instituto de estudos, formação e aperfeiçoamento de (novas) lideranças, idéias, projetos e propostas para o País em sintonia com os valores conservadores. É preciso, para esta realização, um projeto de longo prazo, com estabelecimento de metas e muito empenho.
A iminente derrota para Lula é a senha para a reflexão e estabelecimento de metas futuras de longo prazo. A reorganização de forças políticas pela qual o Brasil passará e que propiciará o surgimento de um novo grupamento à esquerda, é a chance da grande reorganização conservadora que certamente encontrará eco em grande parte da sociedade. Além disso, se tucanos e petistas não acordarem de seu sono profundo, ambos passarão a coadjuvantes do cenário político nacional.
Um novo espectro político se desenha no Brasil. 2007 é o início deste processo. Se aqueles que se dizem conservadores continuarem em seu estado letárgico, a agenda continuará tomada pelos temas esquerdistas. Se continuarem, nos Estados que administram, com a mesma política de manutenção no poder via políticas assistencialistas e clientelistas, é bom que saibam que de nada diferem da esquerda. O Brasil precisa, para contraponto político, pelo bom debate e para o bem do País, de uma direita reformista esclarecida, ética, renovada, que use o espaço político e suas administrações de vitrines para implementação de suas propostas, para a consolidação de sua agenda de mudanças, para que coloque em prática políticas liberalizantes e modernas. Caso contrário, o Brasil continuará a escolher entre candidatos que estão mais, ou menos, à esquerda, o grande ciclo vicioso responsável pela desgraça de nosso País.
Assim, reafirmo, nunca houve uma eleição tão fácil para ser vencida pela oposição, se realmente houvesse oposição.
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